quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Uma espécie obsoleta


Tratar o código genético como um texto e poder editá-lo (ver aqui). Toda a edição de textos visa alterá-los. É este o problema introduzido pela descoberta, em 2012 ou 2013, da CRISPR/Cas9, uma técnica natural de edição genética. O que é interessante aqui não é tanto a promessa que a técnica parece conter. Como sempre, estas descobertas são apresentadas como possibilidades de tratamento de doenças (esta parece prometer intervenções em muitos sectores da saúde). A contrapartida é que a técnica também poderá permitir criar aquilo que não existe. 

Imaginemos um poema. Ao editar o poema podemos, ao introduzir-lhe algumas modificações, tratar-lhe de algumas doenças, mas também podemos transformá-lo noutra coisa. Numa narrativa em prosa, por exemplo. É este fantasma transformador que assombra a descoberta. Esta parece ser a porta aberta para gerar transformações na espécie humana, recriando-a. Isto, para não falar na intervenção noutras espécies. Não faço ideia - pois sou um leigo absoluto nesta área científica - se a técnica em causa tem essas potencialidades. Interessa-me o medo que levanta. Este medo é o outro lado do anseio. Desde há muito que existe uma espécie de revolta contra a realidade tal como ela é dada. 

Na verdade, toda a história da civilização humana é o resultado dessa revolta, dessa discordância com aquilo que foi dado pela natureza. Em linguagem teológica, trata-se de uma revolta contra o criação, a negação veemente do que está escrito no livro do Génesis 1, 31: Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom. Afinal, o homem está longe de estar de acordo. Para ele, poucas ou nenhumas são as coisas que ele diz serem suficientemente boas para não as transformar. A novidade dos nossos dias não é a revolta contra a natureza humana tal como ela é. Essa revolta é já muito antiga. 

A novidade é que o nosso tempo está a um passo de fabricar os instrumentos para que essa revolta possa frutificar. Estamos, movidos pelo combate às patologias que nos afectam a saúde, não muito longe de poder transformar a vida humana num produto meramente artificial, talvez no resultado de uma poiesis movida por intuitos estéticos, que será de imediato transformada num empreendimento económico, como já se assiste no uso de certas técnicas de reprodução artificial em vigor. Caminha-se para transformar, de forma definitiva, a vida humana numa mera mercadoria entre mercadorias. Sujeita às leis do mercado, aos processo de gestão e às estratégias de inovação, isto é, ao processo de criação de novidades e de obsolescência. De certa maneira, já somos uma espécie obsoleta.