sexta-feira, 11 de agosto de 2017

As poltronas burguesas

Gustav Klimt - Lady in an Armchair (1897)

Até ler este artigo de André Ventura no Correio da Manhã, confesso que as suas declarações e a polémica instalada em seu torno não me interessaram por aí além, embora fossem preocupantes. Era expectável que a direita, nomeadamente o PSD, fizessem explorações em áreas que a sensatez política recomenda muita moderação. Esta candidatura do PSD, em torno da figura e da linguagem de André Ventura, é uma experiência. Loures é um concelho dominado eleitoralmente pela esquerda. Se André Ventura conseguir um bom resultado, isso significa que o PSD terá encontrado uma chave para penetrar nos eleitorados tradicionais da esquerda. Um certo desespero pela dimensão eleitoral da esquerda e também uma certa franja militante do PSD podem conjugar-se para fazer aproximar o partido de posições políticas já não hiper-liberais, como as do PSD no anterior mandato, mas do radicalismo de direita. Loures é um balão de ensaio.

O que neste artigo de André Ventura me fez escrever não foi a retórica contra o politicamente correcto. Hoje em dia é politicamente correcto ser contra o politicamente correcto e, portanto, André Ventura cavalga a onda do novo politicamente correcto. Também não foram as suas declarações de amor às pessoas, às suas preocupações e aos seus anseios que me moveram a escrever. O que detonou o artigo foi a frase, atirada contra os que o criticaram, podem continuar sentados nas vossas confortáveis e aburguesadas poltronas. Um candidato do PSD, professor universitário, trazer para o combate político, em forma de crítica, as aburguesadas poltronas não é apenas uma brincadeira surrealista ou um dito de mau gosto. É, efectivamente, um programa político, uma declaração populista. A retórica da direita civilizada era a da democratização das poltronas burguesas, a do acesso de cada vez mais pessoas ao conforto burguês. A da direita populista é a guerra às aburguesadas poltronas. Isto é notável. Há aqui uma inflamação retórica que não preludia nada de bom. Até agora, a direita e a esquerda têm sabido manter o debate em níveis civilizados e têm poupado o país a derivas irracionais. A experiência do ataque às aburguesadas poltronas, sob a égide do PSD, é a primeira experiência para ver se é possível abrir a caixa de Pandora.