segunda-feira, 17 de julho de 2017

Encenação da beleza

Rodney Smith - Two Women in Black, 1992

O que é a beleza? Esta é uma das perguntas a que se aplica a resposta dada, nas Confissões, por Santo Agostinho à questão o que é o tempo? "Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar, a quem me fizer a pergunta, já não sei." A beleza como o tempo parecem escapar ao regime da explicação. Dificilmente se deixam capturar por redes conceptuais e entrar no jogo da argumentação. Contudo, ao olharmos esta fotografia de Rodney Smith não podemos deixar de cair na tentação de falar sobre a beleza. 

Se me perguntassem qual o objecto desta fotografia, do que é que trata, eu diria de imediato que trata da beleza. É um ensaio sobre a beleza. Revela uma característica que não será condição suficiente para a explicar, mas que é, por certo, uma condição necessária. A beleza é encenação. Tudo aquilo que apreendemos como belo resulta de um trabalho, mais ou menos consciente, de cenografia. A beleza é assim o fruto de uma arte dramática. 

Somos então tentados a dizer que não há beleza sem a arte da dramatização e esta pressupõe o trabalho de um cenógrafo atento e cuidadoso. É isto que a fotografia nos mostra, ao ser ela própria o resultado da encenação da beleza. Qual é o corolário da conclusão a que se chegou? Não há uma beleza natural, se entendermos por natural a ideia de uma beleza espontânea, não dramatizada, não encenada. A beleza não é um dado ou um facto. É um processo, um tornar-se, um exercício de representação, em que a beleza para ser bela tem de ficcionalizar-se como tal.