sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Passos Coelho

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Agora que Rui Rio tomou conta do PSD, falemos de quem sai. Passos Coelho recebeu o país das mãos de Sócrates numa situação terrível e com um programa de resgate de dureza desnecessária imposto pela troika. E aqui começa o equívoco de Passos Coelho. Não apenas deixou transparecer que aquele programa da troika, apesar de negociado com Sócrates, era o programa de governação do PSD, como fez saber que pretendia ir além da troika, ser mais castigador dos portugueses do que os representantes dos credores. Num país frágil como Portugal, isto soou a muitos sectores sociais como pura provocação e mesmo uma espécie de revanchismo contra alguma igualdade social que o pós 25 de Abril e a adesão à CEE – agora União Europeia – trouxeram.

Aliado a isto veio toda uma retórica putativamente neoliberal, sustentada pela comunicação e redes sociais, blogosfera e grupos de jovens de aparência liberal e alma autoritária. Toda esta parafernália verbal assentava no puro desconhecimento do país, em leituras apressadas e num desejo indisfarçado das novas gerações da elite encontrarem pontos que lhes permitissem, como vingança social, fazer crescer as desigualdades. E contra tudo o que a prudência aconselhava, Passos Coelho deixou-se envolver neste lixo ideológico, o qual transpareceu muitas vezes nas suas palavras, criando ressentimento em grande parte população.

Passos Coelho perdeu uma grande oportunidade, talvez a maior desde o 25 de Abril, de reformar o país. O choque da governação Sócrates abriu-lhe uma porta para alterar a relação dos portugueses com o Estado e de criar relações sociais mais livres, onde autonomia e iniciativa individuais fossem decisivas. Ora, em vez de um discurso unificador dos portugueses perante a catástrofe (Sócrates e a troika) e a necessidade de um outro caminho, Passos Coelho preferiu um discurso ideológico agressivo, criador de divisões e de louvor à troika. Decidiu fechar a porta que lhe tinha sido aberta.

Isto não significa que o governo de Passos Coelho se pudesse eximir a cumprir o acordo de resgate com a troika. Nenhum governo o podia fazer. O cumprimento do memorando é um mérito que recai em Passos Coelho. Além disso, porém, deveria ter feito outras coisas. Por um lado, ter-se mostrado mais preocupado como destino dos portugueses e, por outro, ter aproveitado a situação para arrumar o Estado e as relações entre este e a sociedade civil. Não fez uma coisa nem outra. Passos Coelho enredou-se em equívocos ideológicos que o conduziram para fora da governação e, agora, da liderança do PSD. Nem um grande estadista nem um terrível demónio social, apenas um fruto equivocado da ideologia.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Um sidonismo suave

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Apesar da situação actual ser radicalmente diferente daquela que, durante a I República, conduziu Sidónio Pais ao poder, o país caiu, sem dar por isso, num novo sidonismo. Sidónio, de forma turbulenta, tal como eram os tempos de então, liquidou o parlamentarismo republicano e instaurou um regime presidencialista. Marcelo Rebelo de Sousa, sem questionar a constituição, está, pelo seu talento pessoal e pela inabilidade dos partidos políticos e do governo, a construir um presidencialismo não de direito mas de facto. À primeira vista tudo se mantém igual ao que sempre foi. O primeiro-ministro é o responsável pela governação,  a Assembleia pelo processo legislativo e o Presidente da República continua com os mesmos poderes limitados dos seus antecessores. Aparentemente.

Percebe-se, desde muito cedo, que Marcelo Rebelo de Sousa tem como projecto determinar a governação do país. Fá-lo não pela subversão do regime, mas dentro do quadro constitucional, tirando partido da ambivalência do semipresidencialismo. A relação directa com os cidadãos, o clima de cumplicidade e de tutoria do povo que ele, mal eleito, começou a construir dão-lhe legitimidade suficiente para aniquilar qualquer desafio que um qualquer governo lhe lance. O momento decisivo em que o regime se torna efectivamente presidencial é o da tragédia dos incêndios. Se até aí o governo já tinha pouca margem de manobra, a partir da segunda vaga de incêndios deixou de ter qualquer independência relativamente aos desejos políticos de Marcelo Rebelo de Sousa. O governo começou por ser uma iniciativa da esquerda maioritária no parlamento. Hoje, ao perder a autonomia face a Belém, é o governo do Presidente da República.


Presidencialismo e uma relação directa com o povo foram características centrais do sidonismo. Também a actual relação da população com os partidos políticos é semelhante à existente no tempo de Sidónio. Perante as inabilidade e maquinações dos partidos e a cada vez menor consideração que a população lhes vota, o Presidente, pai e pastor do povo, trata-os de forma professoral e condescendente, exercendo um nunca confessado poder executivo real. Sem sujar as mãos, Marcelo Rebelo de Sousa realiza o seu velho sonho de governar, embora por interposta pessoa. As próximas eleições legislativas não têm já a ver com quem os portugueses escolherão para governar. Elas vão decidir através de quem, pessoas e partidos, Marcelo Rebelo de Sousa irá continuar a governar o país. Um novo sidonismo. Suave, cheio de afectos e de paternalismo. 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Interregno

Lorenzo Costa, Birth of Jesus, 1490

Também o Kyrie Eleison suspende a sua actividade neste período de festas. Voltará em Janeiro. A todos um Bom Natal e um Feliz Ano Novo.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Advento e Natal

A minha crónica natalícia em A Barca.

As nossas sociedades secularizadas, mesmo se compostas por pessoas formalmente cristãs, perderam há muito qualquer relação profunda com a religião. Observemos o Natal. Este, devido à sua transformação numa grande festa pagã, em tudo contrária à frugalidade do presépio, é um caso perdido. Para compreender essa perda, vale a pena perscrutar aquilo que as sociedades tradicionalmente cristãs abandonaram no processo de secularização. Ligado ao Natal está o Advento. O interessante desse tempo de preparação do Natal é o seu conjunto de valores, os quais todos nós, crentes, agnósticos e ateus, podemos partilhar. Sublinho três. O arrependimento, a fraternidade e a paz. Nenhum deles exige que sejamos crentes.

A desvalorização da contrição cristã, mesmo pelos cristãos, é algo que nem um ateu deve celebrar. O arrependimento está ligado à falibilidade humana, ao reconhecimento dos nossos limites, à tomada de consciência do mal que fizemos aos outros. O arrependimento é um trabalho de contínua educação moral que o sujeito faz sobre si mesmo. Haver, no ano, épocas em que ele é solicitado significa que a sua importância está viva. Hoje em dia, o arrependimento é visto apenas como um problema da consciência individual, no melhor dos casos, ou como uma fraqueza que se deve evitar. Tornou-se irrelevante, socialmente.

A fraternidade, por seu lado, é fundamental em qualquer sociedade e, por maioria de razão, em sociedades concorrenciais. Estas estão organizadas para que, a todos os níveis, os indivíduos concorram uns com os outros. Esta concorrência tem méritos inegáveis. Fornece melhores produtos, torna as pessoas mais capazes, melhora as próprias instituições. Tem, todavia, um perigo. A sua natureza adversarial pode conduzir à ruptura dos laços comunitários. A fraternidade lembra-nos que pertencemos todos à mesma espécie, que, para além de concorrentes, somos irmãos e, por isso, temos um dever de cuidado mútuo e de manutenção entre nós da paz, essa outra exigência do Advento.

A secularização das sociedades permitiu-lhes separar a salvação da gestão da vida civil, o que foi uma conquista civilizacional. Mas, ao olharmos para a vida de hoje, não deixa de haver um sentimento de perda. A religião trazia com ela um conjunto de valores e de tempos onde eles se tornavam manifestos e de exercício obrigatório. De certa maneira, mesmo que a salvação fosse uma ilusão, as comunidades saíam fortalecidas. O nosso egoísmo natural era confrontado e posto em cheque. Isso acabou, como todos sabemos. Por que razão, sem Advento, haveria de haver um Natal que não fosse um exercício risível de ostentação?

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Ensaios sobre a luz (20)

Myron Wood, Stone, 1980 (via)

Do chão, iluminada, nasce uma pedra que, perdida e quase póstuma, espera a noite para regressar à morosa moradia do sombrio e sonâmbulo silêncio.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Êxodos e errâncias

Marc Chagall, Êxodo, 1952-66

Mais de 350 anos da chamada Paz de Vestefália tornaram, para nós Europeus, a territorialidade e a soberania, a que posteriormente se adicionou o jogo da cidadania com as suas regras de inclusão e de exclusão, como o modo natural do existir humano. A cada grupo o seu território e as suas leis. E esse longo hábito social e político tornou-nos cegos para a realidade da espécie humana. A errância pelo mundo e o êxodo contínuo de povos e grupos alargados de indivíduos são pulsões tão fortes que não reconhecem os diques que a ordem jurídica trazida à Europa, e através dela ao mundo, pela Paz de Vestefália quer impor à realidade.

Aquilo que assistimos na Europa com a chegada contínua de imigrantes e a eleição, em diversos países europeus, de governantes com programas para liquidar a chegada de migrantes e, se possível, expulsar os que já lá estão é apenas a manifestação do conflito entre a pulsão natural da espécie humana para o êxodo e a artificialidade cultural e jurídica da territorialização das soberanias. No mundo ideal nascido com a Paz de Vestefália, nós teríamos o nosso território e as nossas regras e vós, os outros, o vosso território e as vossas regras. A realidade, porém, é que as fronteiras jurídicas são construções frágeis perante o apelo constante ao êxodo que anima a espécie humana, como se o nosso lugar fosse sempre um outro no qual não estamos.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Um programa político

Hans Zatzka - At the Swan Lake

Olhamos a pintura de Hans Zatzka e facilmente encontramos nela uma imagem, por certo estereotipada, da Áustria. Quem leu Thomas Bernhard tem, contudo, outra imagem da Áustria. O escritor via sob o véu da social democracia e do catolicismo austríacos algo de muito tenebroso, tenebroso que foi o objecto da sua obra. E é esse tenebroso que explicará o novo governo austríaco. Não apenas pela extrema-direita ter voltado, mais uma vez, ao poder, mas porque as três grandes pastas políticas lhe terem sido entregues: Negócios Estrangeiros, Defesa e Interior. Uma economia liberal e uma política musculada. Eis todo um programa político. A Áustria nunca foi um conto de fadas.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Micropoemas - Mármore 4

Ben Kerckx, Paisagem de pedreira de mármore de Carrara, 2007

4. Da terra

Da terra,
a solidão do monte.

Do mármore,
um deus no horizonte.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

sábado, 16 de dezembro de 2017

Ensaios sobre a luz (19)

Herman Leonard, Dancer-Choreographer Martha Graham, Undated

De súbito, da cintilação de uma estrela nascem mãos, e o corpo, leve e luminoso, fulgura e ergue-se da penumbra, onde, por instantes, levita para, agraciado, pousar em graça e luz.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Há-de vir um Natal

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Cheguei àquela idade em que os versos, de David Mourão-Ferreira, “Há-de vir um Natal e será o primeiro / em que se veja à mesa o meu lugar vazio” começam não só a fazer sentido, demasiado sentido, como crescem espectrais sobre mim. Há muitas pessoas que não cultivam o Natal ou, mesmo, que o desprezam. Não me incluo nesse grupo. O meu culto do Natal foi-me trazido por um não crente, o meu pai. E nunca passou. Nesse culto, eduquei os meus filhos, e espero que eles eduquem os meus netos. Há uma coisa, porém, que se alterou radicalmente. Antigamente, o Natal era marcado pelas presenças. Agora, pelas ausências. E com o passar vertiginoso dos Natais, o meu lugar vazio à mesa está cada vez mais próximo.

Ora, no Natal, o doloroso não é o sentimento desse dia em que não estaremos já presentes, nem o dia em que não haverá ninguém na terra que de nós se recorde. Se olho para esse facto póstumo, nada nele me comove a não ser que outros, devido à minha ausência, se tornarão, para mim, ausentes. Doloroso não é perdermo-nos a nós, mas é perdermo-nos daqueles que mais amamos. O Natal surge assim, na sua plenitude, como uma celebração da presença. Que isso tenha sido sublinhado por um mito, onde se narra que nascido do seio virginal de uma mulher o filho de Deus se tornou presente no mundo, é irrelevante. Podemos dizer que o filho de Deus veio ao mundo para que nós, pobres mortais, possamos celebrar a vida e a precariedade da presença dos que aqui estão.

Quando na mesa de Natal começa a haver ausências, percebemos que há alguma coisa errada na exuberância que tomou conta da quadra festiva. O excesso de luzes pelas ruas, o turbilhão comercial que sobre nós desaba, a necessidade de presentear, no excesso que as nossas sociedades exigem, os próximos, tudo isso surge como um véu para ocultar a realidade. E a realidade é a da fugacidade da nossa presença sobre a terra, a fugacidade da presença dos que amamos.

Este Natal mundano e mercantil, ah o velho fetiche da mercadoria, aquele que nos cabe viver no tempo presente, é não apenas um adversário poderoso desse outro Natal, mas um inimigo terrível e sem complacência. O Natal do mito fala-nos da presença para sublinhar que mesmos os que deixaram o seu lugar vazio ainda fazem parte de nós e da pequena comunidade que se reúne à mesa. O Natal da realidade de hoje é um exercício falso de alegria cuja finalidade é esquecermos o que nunca deveremos esquecer. Sim, eu sei: “Há-de vir um Natal e será o primeiro / em que não viva já ninguém meu conhecido”.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Credo quia absurdum

Raymond Daussy - Icarus flight (1948)

Talvez um dia destes fale sobre Tertuliano. Tudo é possível. Hoje, porém, fico-me pela frase latina Credo quia absurdum,  Creio porque é absurdo. O que me interessa não é a polémica religiosa entre o fideísmo e a ortodoxia, tão pouco o desafio que ela apresenta à razão filosófica. A frase de Tertuliano é um óptimo guia para determinar a verdade dos acontecimento políticos de hoje em dia. Há tempos, muito se falou – por exemplo, na sequência do Brexit ou da eleição de Trump – numa era da pós-verdade. Erro de perspectiva. A nova era não nega a verdade, diz-nos apenas que o verdadeiro é absurdo. As pessoas lamentam-se de que, em política, não sabem o que acreditar e em quem acreditar. A solução é fácil: quanto mais absurdo mais digno de ser considerado verdade. Um acontecimento é absurdo, logo é verdadeiro. Um personagem político é absurdo, logo é digno de crédito. Qualquer argumento político que se possa reduzir ao absurdo deve ser considerado válido. Tertuliano, na verdade, era um visionário. Da longínqua Cartago dos século II e III da nossa era, ele olhou para o futuro e compreendeu a essência dos nossos dias: Credo quia absurdum.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Ensaios sobre a luz (18)

Francisco Mora Carbonell  - A la cita, Spain, 1935

Sob a luz que rasga as trevas, o amante caminha inquieto e sôfrego para a sofreguidão dos braços que a amada na inquietude da espera lhe estende.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Micropoemas - Mármore 3

Cascatas de calcário na Turquia, Egeu

3. Calcário

Calcário,
cidade sem fim.

Brancura,
morte a sonhar-se em mim.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

domingo, 10 de dezembro de 2017

Alma Pátria - 40: Francisco José - Olhos Castanhos



Este era também um dos "cromos" que não poderia faltar nesta "colecção" de Alma Pátria. Temos a reprodução da edição de Olhos Castanhos em 78 rpm, a primeira gravação, efectuada pela etiqueta Estoril. Foi graças ao blogue IÉ-IÉ que descobri que Francisco José é irmão do cientista Galopim de Carvalho, esse mesmo, o dos dinossauros. Olhos Castanhos é uma magnífica canção, talvez a mais conhecida de Francisco José. Talvez fosse mais indicado uma outra, Guitarra Toca Baixinho, mais de acordo com o espírito da rubrica. Mas fiquemos pela taxonomia dos olhos, que não deixa de ser um catálogo de fidelidades e traições. Se não tiver olhos castanhos, paciência. Acontece aos melhores.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Ensaios sobre a luz (17)

Dennis Stock, Venice Beach Rock Festival. California, 1968

A luz do Verão nasce no centro do mar e derrama-se, furtiva, no desejo dos corpos que, entediados, esperam a revelação de um segredo ou da volúpia de uma deusa.