segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Micropoemas - Amor 2

Milton Greene - Marilyn Monroe with mandolin. Los Angeles, California, 1953

2. Olhos

Dos olhos,
a luz e o halo.

Das mãos,
o segredo que calo.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

domingo, 24 de setembro de 2017

Ensaios sobre a luz (6)

Heinz Held - Die Tiefe des Lebens, Köln, Germany, Date Unknown

Se o frio cai sobre a cidade, a luz hesita e desce em lentos e leves flocos de neve.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Agências de rating

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Há uma tendência – à esquerda do PS – para censurar continuamente as agências de rating e o papel que elas têm tido na dívida portuguesa. E como consequência dessa censura dizer-se que as avaliações delas não devem ser tidas em conta, o que interessa é a vida dos portugueses e não a opinião de agências de especuladores. Ora é aqui que devemos perceber a distinção entre o que a realidade é e aquilo que deveria ser.

Podemos questionar a moralidade ou não destas agências de rating. Ao olharmos para a sua história e para muitas das suas decisões, ficamos convencidos de que o mundo seria, na verdade, um sítio melhor se elas não existissem. Desconfiamos também que as suas decisões arbitrárias prejudicaram o país e os portugueses. Em resumo, do ponto de vista moral não é errado, antes pelo contrário, censurar as agências de rating e o seu papel.

Se isso não é errado, será correcto dizer que Portugal e os portugueses não devem prestar atenção aos juízos dessas agências? A resposta a esta pergunta é composta por duas outras perguntas. Portugal poderá sobreviver com avaliações muito negativas dessas agências? Os portugueses e as empresas nacionais poderiam viver melhor sem uma avaliação positiva da nossa dívida por parte dessas agências? A resposta a estas duas perguntas é uma só: não. Nem o país, nem os portugueses, nem as empresas portuguesas têm independência suficiente para serem indiferentes ao juízo desses agências.

Do ponto de vista político, a moralidade ou a imoralidade das agências de rating é um problema inútil. Não temos capacidade nem autonomia para viver sem esse juízo. Ele é-nos imposto tal como os fenómenos naturais. Por muito que protestemos, os dias de calor são dias de calor e os dias de frio são dias de frio. Quando se diz que o facto da agência Standard & Poor’s ter tirado a dívida portuguesa da categoria de lixo (uma metáfora que quer dizer mau investimento) não é muito importante e que Portugal não pode depender dessas agências para tomar decisões, está-se a mentir deliberadamente e a vender uma ilusão.

Não temos poder para manipular o clima, para evitar os dias de calor ou os dias de frio, mas podemos protegermo-nos do calor e do frio. Também não temos poder para nos libertar das agências de rating, mas podemos protegermo-nos delas. Como? Controlando o défice público (e o privado), não gastando mais do que é possível, gerindo com rigor a fazenda pública e pagando a dívida para nos irmos libertando dela. Não há outro caminho para nos protegermos da falta de moral das agências de rating. E é isso que todos devemos exigir que aconteça e não semear a ilusão de que não dependemos delas.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Uma comédia de enganos

Georges Malkine - Aniska (1955)

O Observador é um manancial ilimitado de actos falhados ou de dissonâncias cognitivas. Veja-se, por exemplo, o artigo do psiquiatra Pedro Afonso sobre a iniciativa legislativa do Bloco de Esquerda, mas também do governo (este mais moderado), sobre a possibilidade de permitir a mudança de sexo aos 16 anos. Quando se desloca o assunto da área política para a psiquiatria - eventualmente, para a ciência - falha-se de imediato a compreensão do que está em causa. Diz o articulista: Esta teoria (a ideologia de género) assenta na ideia radical de que os sexos masculinos e femininos não passam de uma construção mental, cabendo à pessoa escolher a sua própria identidade de género. 

O que o pensamento conservador não compreende é que este tipo de posição deriva directamente do projecto que marca o Ocidente desde o Renascimento. É um projecto que começa por colocar o Homem no lugar de Deus e que evolui para a consideração desse Homem na sua singularidade e no poder da sua livre iniciativa. Tudo o que era visto como um dado de facto, o resultado da criação divina, passou a ser objecto sistemático de reforma e reconstrução por parte do Homem ou dos homens através da iniciativa dos indivíduos. As relações sociais deixaram de ser percebidas como imutáveis, mas objecto de continua reconstrução humana. A natureza é, desde há muito, uma construção, nem sempre domesticada, segundo projectos humanos. 

É nesta lógica que se inscreve a reconstrução da identidade de género. O problema não tem nada a ver com a psiquiatria mas com o direito absoluto de cada um dispor da sua própria pessoa, desde que isso não interfira com terceiros. A ideologia que sustenta estas pretensões é o liberalismo e não outra. O Bloco de Esquerda, com a sua agenda ligada aos costumes, inscreve-se nessa tradição liberal, tendo sido em Portugal um destacado agente da liberalização da sociedade, de cumprimento do projecto da modernidade e do Iluminismo. A fluidificação da identidade sexual, para usar uma metáfora de Zygmunt Bauman, está de acordo com a natureza fluida do capitalismo actual.  No fundo, o BE não faz mais do que pôr em prática o slogan de Milton Friedman: Liberdade para escolher. O mais curioso de tudo isto é que os nossos hiper-liberais temem os efeitos da autonomia dos indivíduos e os nossos iliberais tornam-se agentes contumazes da liberalização. Uma comédia de enganos.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Alma Pátria - 35: Eduardo Nascimento - O Vento Mudou



Há uma coisa que é verdade na ideologia do Estado Novo, a natureza multirracial do Portugal de então. Uma prova? A vitória, em 1967, de Eduardo Nascimento, angolano, no Festival RTP da canção e, consequentemente, a sua eleição para representar Portugal no Festival da Eurovisão. Uma aproximação cançonetista (seria melhor dizer, uma terminação, como na lotaria) do Eusébio do futebol. A guerra em Angola, que, se exceptuarmos o incidente indiano, deu o tiro de partida para as guerras coloniais dos anos sessenta e setenta do século passado, tinha começado há cerca de seis anos e faltavam ainda sete para terminar. Curiosamente, Eduardo Nascimento é o autor do hino do MPLA. Apesar dos ventos de mudança que a cançoneta apregoa, ainda faltava muito para que o vento mudasse definitivamente. Este vento apenas falava de delíquios do coração. E se havia coisa que o regime puritano e assexuado do professor Salazar gostava era de delíquios de coração. Enquanto o coração treme, rebola e rodopia, a razão descansa.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Micropoemas - Amor 1

Edward Weston - New York Interior, 1941

1. A noite

A noite,
relâmpago breve.

Saber o fruto,
os gestos e o sono leve.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Ensaios sobre a luz (5)

Toni Schneiders - Train in landscape. 1950s

Na clareira aberta pela luz, cai, de súbito, o veloz vapor da escuridão.

domingo, 17 de setembro de 2017

Um instante

Robert Doisneau - Sondersdorf, Alsace, France, 1945

Com a excepção da estrada alcatroada, a denunciar a existência de automóveis, e das três raparigas com equipamento escolar, nada na fotografia de Doisneau nos indica que estejamos no século XX. É verdade que 1945 faz parte de uma época muito conturbada, na qual o engenho dos homens estava mais dirigido para a destruição do que para a comodidade de vida. Não é isso, porém, que chama a atenção do olhar. O que é central é a fusão de épocas num mesmo instante. De costas para nós está o futuro que parece hesitante em pôr-se a caminho. Voltado para o espectador está o passado, tomado pela desolação. Olha em direcção ao futuro, que o vai submergir, mas também para nós, voyeures ocasionais. Talvez espere que, nos nossos corações, habite uma réstia de piedade e que o salvemos. Em vão.

sábado, 16 de setembro de 2017

A dissonância comunista


Apesar de esperada, não deixa de ser curiosa a reacção do PCP à elevação do rating da dívida pública portuguesa pela agência Standard & Poor’s. Segundo o Público, Paulo Sá, dirigente comunista, afirmou que Portugal não pode depender "dos humores ou dos estados de espírito das agências e, muito menos, estar dependente dessas agências e das suas dinâmicas especulativas". Por que razão esta afirmação é curiosa? Porque o PCP é um dos responsáveis – juntamente com o PS e o BE – da actual política que tem recebido um forte apoio e reconhecimento das instâncias políticas e financeiras internacionais. O PCP, se quisesse, poderia deitar tudo a perder. Bastaria mobilizar em força o aparelho da sindical e cortar com os socialistas, afundando o governo. Por que não o faz, já que a política de António Costa depende efectivamente “dos humores ou dos estados de espírito das agências” e “das suas dinâmicas especulativas”? Por que razão não atendeu até aqui à imploração veemente da direita para que o faça?

Não o faz porque o PCP não é nem irresponsável nem aventureiro. Por detrás da sua retórica anticapitalista, os dirigentes do PCP sabem muito bem que o país depende das agências de rating, do FMI, do Banco Europeu, dos humores da União Europeia e do estado de espírito, embora não seja muito dada a isso, da senhora Merkel. Os dirigentes comunistas sabem perfeitamente que se se aplicasse aquilo que eles dizem defender (saída do Euro e da União), o país se afundaria numa triste Venezuela e nem os seus fiéis eleitores lhe perdoariam. Também sabem que fora da economia de mercado – isto é, do capitalismo – não há nada para onde o país possa ser conduzido. Porque sabem tudo isso têm colaborado na adequação do país às exigências do capitalismo, têm contribuído, inclusive, para amenizar essas exigências, tornando-as mais digeríveis pela população.

Por que razão há esta dissonância entre a prática dos comunistas e o seu discurso? A explicação mais plausível é a de que têm medo que o seu eleitorado tradicional se indisponha com o colaboracionismo do partido com o capitalismo e os velhos rivais do PS, sempre apostrofados como aliados da direita e apóstolos das políticas capitalistas. Contudo, isto é ter pouca consideração pelo seu próprio eleitorado. A generalidade dos eleitores comunistas é inteligente e percebe muito bem a situação em que vivemos. Sabe que não existem amanhãs que cantam, nem que sair da União Europeia seja uma coisa boa para o país. Sabem inclusive, embora não gostem (quem gosta?), que dependemos dessas agências e dessas instituições. As pessoas que votam comunista irão continuar a fazê-lo, apesar deste acordo com os socialistas e das políticas reconhecidos pelas instâncias do capitalismo global. Mais, julgo que a maioria dos eleitores comunistas deverá preferir que o seu partido influencie a governação – e, provavelmente, que governe – do que seja uma organização de mero protesto. E preferem isso não para os levar para o socialismo, mas para uma sociedade capitalista, que tenha uma maior justiça e seja socialmente mais equilibrada. Já era tempo do PCP se deixar destas rábulas e assumir o que está a fazer. O país agradecia.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

A revolta

Jing Huang - Pure Sight

O que me prendeu nesta fotografia de Jing Huang não foi a paisagem ou a referência à visão pura, mas a aparência estática dos dois homens que nela aparecem. É um acto de profunda revolta. Revolta contra o movimento, contra o tempo, contra a vida. Uma revolta contra o ser e a ordem da criação. Perante a impossibilidade da vitória sobre a morte, resta a imobilidade de um protesto mudo.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Micropoemas - Pequenas dádivas 9

Salvador Dali - Nacimiento del Nuevo Mundo (1942)

9. Terra e mar

Terra e mar,
o mundo em gestação.

E tudo se perde no incêndio do Verão.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Saber calar

Alejandro Mesonero - Y sin embargo silencio

Uma das competências fundamentais da vida política democrática é a gestão da palavra. A democracia é o regime onde a palavra é livre, onde tudo, ou quase tudo, pode ser dito. Isto, porém, é uma aparência. Os detentores do poder, por exemplo, possuem uma esfera de liberdade de expressão muito menor do que pensam. Passos Coelho sentiu na pele essa limitação. O que dizia, logo se voltava contra ele. Essa limitação da liberdade de expressão não se faz por intermédio da censura, mas através do preço político que aquilo que é dito arrasta consigo. Tudo o que em política se faz ou diz tem um preço político. O escrutínio dos media e das oposições é implacável.

António Costa e a esquerda estão a começar a perceber isso. As palavras de congratulação pela redução do défice, pela saída do país do procedimento por défice excessivo, o anúncio do fim da austeridade - palavras mobilizadas com o entusiasmo de uma vitória - estão agora a cair em cima do governo, como no caso da greve dos enfermeiros e no que se prepara para os próximos tempos. A esquerda está a começar a sofrer na pele aquilo que fez ao anterior governo. Se pensou que ia ser poupada a isso, já é tempo de se desenganar. E nisto há já derrotas claras. Na greve dos enfermeiros não é só o governo que está em perda. O PCP é um dos grandes derrotados, ao ser mostrado ao país que não tem qualquer controlo na classe dos enfermeiros.

Para ganhar eleições basta ser esperto e ter algum traquejo na manobra política. Domesticar a própria palavra, ter a percepção clara do que se pode dizer e daquilo que sendo dito pode vir cair em cima da própria cabeça, isso exige uma sabedoria e uma profundidade de pensamento que nenhum político no activo parece ter. Essa falta de maturidade existencial, digamos assim, torna-os impotentes perante a voracidade da comunicação social. Sem dar por isso, estão metidos num sarilho político motivado pela repercussão do que dizem. Muitas vezes pensam que contratar uma agência de comunicação resolver o problema. Não resolve, pois o problema não está na comunicação mas na necessidade de silêncio, de ter a maturidade suficiente para saber calar-se nos momentos mais eufóricos, para evitar que as palavras atiradas contra os adversários - e em política todas as palavras são atiradas contra os adversários - sofram o efeito de boomerang e atinjam quem as profere.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

O governo que se prepare

Alfonso Parra Domínguez - Realidad Dialéctica (1977)

António Costa está a descobrir os limites da experiência governativa. Se alguma vez pensou que um acordo com o PCP o livrava de problemas na distribuição dos dinheiros do Estado, agora já sabe que isso não é assim. A greve do enfermeiros é apenas um sinal do que pode vir aí. É uma ilusão julgar que o poder sindical está concentrado nas mãos do PCP. O PSD, por exemplo, tem capacidade de mobilizar certos grupos cuja acção é muito mais poderosa e desarticuladora da governação do que o PCP. E o PSD, sempre que esteve na oposição, nunca hesitou em ser mais esquerdista e radical que os esquerdistas e radicais de esquerda. As reivindicações sindicais sobre o Estado, induzidas pela direita, só vão parar quando o governo cair. O Estado vai ser o grande palco de luta pelo poder. O governo que se prepare. 

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

domingo, 10 de setembro de 2017

Um absurdo

Odilon Redon - A loucura (1883)

Hoje é o dia em que pais e alunos festejam a entrada nos cursos do ensino superior. É natural. Contudo, este momento de alegria - e, por vezes, de insuportável exibição por parte de pais pouco dados à contenção - não nos deve ofuscar a loucura que está presente nestas admissões ao ensino superior público, e é só a este que me refiro. A coisa diz-se em poucas palavras. Muitos destes alunos, mesmo que terminem os seus cursos, nunca trabalharão nas áreas que escolheram. Eu conheço o argumentário dos defensores deste devaneio. As pessoas têm o direito de escolher os cursos que bem entenderem, a formação inicial, seja ela qual for, é um bom começo para qualquer que seja a profissão que irá estar disponível. Mas também conheço muitos alunos que entraram nas universidades, fizeram cursos e acabaram em empregos indiferenciados e se arrastam na vida muito longe das áreas para que fizeram formação. Para se ter uma ligeira percepção da dimensão da loucura que tudo isto representa atente-se à tabela abaixo.


Escolhi onze áreas universitárias - poderia ter escolhido muitas mais, algumas tão ou mais problemáticas do que as escolhidas - para dar a ver como tudo isto é absurdo. Vejam-se os alunos colocados na 1.ª fase - destes cursos não há vagas para a 2.ª fase - em áreas como Sociologia, Filosofia, Psicologia, Antropologia, História, História da Arte, Arqueologia, Relações Internacionais, Ciência Política, Ciências da Educação e Ciências da Comunicação. Imaginemos que metade destes alunos conclui os cursos. Multipliquemos isso por 10 anos. Os números de licenciados nessas áreas tornam-se extravagantes. Ninguém me vai convencer que o país precisa de tanta gente com formação nestas áreas e noutras com o mesmo grau de saída. 

O país precisará de abrir 166 vagas para arqueólogos, ou 825 para psicólogos ou 449 para sociólogos? Por muito que se diga o contrário, tudo isto é um crime. Um crime contra os alunos e as famílias que vão ao engano. Um crime contra o erário público. Estamos a investir em formações que não têm saída, nem sequer na emigração. Isto já foi pior, mas o absurdo continua e como a escolha dos alunos não desaparece (o azar de não encontrar colocação pós licenciatura vem longe e só acontece aos outros e aos filhos dos outros), os cursos subsistem. O Estado demitiu-se, há muito, de racionalizar os recursos educativos. Como explicar a existência de 12 cursos públicos de Psicologia, 10 de Sociologia, 7 de História, para além dos 4 de História de Arte e 5 de Arqueologia? Para mim é um enigma a existência de 5 cursos de Filosofia - já foram mais - ou 6 de Ciências da Comunicação. É evidente que as Universidades não têm qualquer interesse nessa racionalização e, em última análise, é-lhes indiferente o destino daqueles que as frequentam. Um absurdo que ajuda a explicar por que razão, mal se olha para o lado, as contas públicas estão fora dos carris.